Com cheiro de tinta fresca, mas sem o título.
Faço questão que seja assim?
Ou, se você quiser, pode brincar de inventar um título para este texto.
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Quando cai o sol das cinco não tem modo da gente não chacoalhar. Eu ando com essa ideia na cabeça não faz muito, mas já é o bastante pra faltar sossego. Se eu descuido, escapa todo o leite sobre o fogão. Com o susto, parece que me acordo de novo, mas daí já perdi até a vontade de tomar o café.
É que de tardezinha parece que as coisas adquirem um contorno cobreado com a cara do paraíso. Ou do inferno. Tanto faz, por onde for melhor de transitar.
Hoje reconheço este espanto. Essa mesma cara, acusando este mesma hora. Não foi nem um, nem dois dias. Eu enxergava a filha do Nivaldo vindo caminhando, lá da fábrica, com um jeito esquisito. Meio mole. Com cara de quem está ardendo em febre.
Em muitos dias, puxei a cortina cheia de razão. Evitando até um aceno. De problemas já bastam os meus.
Mas teve um dia em que eu aguava a nespereira e não ouve modo de não lhe cumprimentar, já que era por ali que ela cruzava pra chegar em casa. Ainda assim, fiz cara de quem tem ta com muita enxaqueca. Ela encostou os braços de leve na cerca dando sinal de que ia se demorar e disse qualquer coisa como eu prefiro a madeira bruta. Nesse momento deu um nó na mangueira, desses que impedem a água de atravessar. Eu tive que dar meia volta pra procurar a dobra. Fiz daquilo distração e fui logo emendando alguma frase que terminava seca em alguma coisa como não se faz mais mangueira como antigamente. Esses argumentos que a gente acha quando quer ganhar razão. Ela ficou ainda uns minutos e entrou sem dizer mais nada.
Amanheceu atordoado depois disso.
Acordei com tempo de avistar o carro fúnebre se afastando da casa do Nivaldo. Nem precisava saber mais nada. Já tocaram cedo dando nome pra desgraça. Pobre do Nivaldo. Com a despesa ainda toda pra pagar do casamento dela.
Eu sei que o Nivaldo vai ficar, feito o viúvo, fazendo questão de pagar pela bainha ainda não feita no vestido de noiva da filha. Como se assim estendesse a partida. Ele vai mudar até o jeito de cumprimentar a gente.
Eu bem que podia ter dado ouvido ao que a infeliz queria ter dito. Mas não dei. Já me consumi pensando no que podia ser e não consigo fazer nenhuma associação que me traga alívio.
Deus que me perdoe, mas se ela ia se matar, podia me ter vindo com outra conversa. O que posso fazer é deixar entrar a segunda semana e levar umas roscas de polvilho ainda quentes pro Nivaldo. Pra ir despertando apetite.
Não sou boa de puxar prosa em véspera de festa, quanto mais depois do enterro. Jamais vou dar um pio sobre a conversa que eu não tive com ela. Prefiro quando é assim. Se bem que desde aquele dia ando me sentindo muito mais ridícula.
Dia após dia, encho a casa de motivo. Já gastei meio caderno de receita tentando escrever um poema. Eu que nunca fui disso, fiquei gamada numa coisa que batizei de poema questionamento. Não sei qual outro nome poderia ter, mas o certo é que é uma coisa sem fim, porque o diacho das novas perguntas já recomeçam na hora de enfileirar as dúvidas.
Mas uma coisa é certa, gostar de madeira bruta não tem nada a ver com a proximidade do casamento. Senão a danada teria dito alguma coisa que lembrasse grinalda.
Nem preciso me olhar no espelho para saber que agora estou com a mesma cara dela lá na cerca. Com este amarelo de quem quer muita resposta. Só que agora as certezas me custam como nunca.
Por não dar ouvido (?) me sinto condenada à morte. Ou foi que nasci assim e só agora me afetou a condição? De um jeito ou de outro, não vejo outra alternativa: vou cortar a nespereira e abrir uma tenda. Uma questão de ser bruxa?